domingo, 3 de junho de 2007

Um grande beijo

Um grande beijo
inicia-se antes mesmo do ato:
os olhares se devoram,
e o desejado torna-se fato.

Os olhos agora perdem-se
na escuridão das pálpebras
e seguem o ritual suave
dos lábios e das línguas, que se procuram.

E viajam sem sair do chão,
e o mundo gira apenas em torno deles,
e a respiração fica ofegante,
e o calor irradiado
funde as almas.

Grandes beijos são raros
e escassos, geralmente.
E, às vezes,
são fáceis de se achar,
no entanto,
vêm de bocas erradas

Quem é que nunca beijou?
Quem é que nunca teve um grande beijo?
Quem é que não viu na pessoa errada
o lado escuro do seu desejo?

sábado, 28 de abril de 2007

Eu, paisagista

Pobre jardim...
plantas crescem,
plantas florescem,
plantas morrem,
plantas apodrecem.
Mas deram bons frutos
(ou não).

Agora cuido do meu jardim.
O vento trará boas sementes e
plantas crescerão e florescerão.
Molho, deixo o sol entrar.
Paisagem a meu modo,
jardim a se estruturar.

E assim novos visitantes
virão ao meu jardim,
sentirão o néctar das flores
e permanecerão nele,
ou não...

domingo, 22 de abril de 2007

Hoje

Hoje eu acordei sem vontade de me preocupar com o tempo
Hoje eu quero viver o dia intensamente
Hoje o ontem já não importa
Hoje eu modifico o amanhã
E amanhã estarei vivendo o hoje
E ontem eu já não sou mais
Hoje eu quero me entregar
Hoje eu não quero trabalhar
Hoje eu fui ver o mar...

quarta-feira, 21 de março de 2007

Histórias da roça

Fim de tarde na roça. Após o pôr-do-sol, o azul escuro da noite se mistura com os últimos raios de sol, formando aquela camada laranja-escura. Os pássaros emitem os seus últimos cantos e preparam-se para dormir. Quem ainda permanece acordada e cantando é a cigarra. Foi-se mais um dia, animado e feliz, como os dias na roça são, para um menino criado na cidade. Andar à cavalo, brincar com cachorros, passear pela roça, jogar bola... são tantos os prazeres de se estar no campo, totalmente desplugado da cidade. Fim de tarde, casa escura: é hora de acender os candeeiros. Candeeiros acesos, e a casa já fica com clima de noite. E o café? E a janta? Tem que acender o fogâo à lenha! E menino já gosta de brincar com fogo... "Deixa isso aí, menino! Quer se queimar?" Mas, e o banho? Tomar banho na fonte é uma maravilha! Os pudores da cidade acabam nos preocupando, às vezes, mas é tão bom ficar niu em contato com a natureza! Porém, tomar banho na fonte depois do fim de tarde é cruel: o frio não perdoa! E puxa a àgua do balde, e toma banho, e se esfrega, e se treme dos pés à cabeça, e corre para se enxugar logo... Banho tomado, volta para casa. A noite já caiu, e o caminho está totalmente escuro. Um breu enorme! É muito bom andar no escuro. E o céu na roça é muito mais bonito, tem muito mais estrelas! Ao chegar em casa, cheirinho da fumaça e da janta cheirosa! "Mãe, quero jantar!" E na casa, aquela festa familiar que só a roça proporciona!

domingo, 4 de março de 2007

Todo sertanejo tem um fascínio pelo mar

Pois nas abas do chapéu queimado pelo sol e surrado pelo tempo, vão e vêm gotículas de lembranças. Os olhos irradiam uma nuvem espessa de felicidade e paz. Tira o chapéu e cumprimenta o mar. Não banha-se e benze-se, inicialmente, pois este costume não é de seu conhecimento. Prefere cumprimentar aquele “açudão” agitado, que mais se assemelha a um boi enfurecido. Tempos de criança reaparecem em questão de alguns segundos na sua mente, quando brinca, inocentemente, com a água. Chuta, corre, cai e mergulha... Da pele seca castigada pelo sol sertanejo, ressurge a camada encharcada e salina, brilhante como o luar sertanejo. E as ondas vêm e vão, assim como a seca, assim como a plantação. E, enquanto brinca com a água, momentos peculiares são apagados, como por exemplo, os dias em que teve que aboiar gados secos e quase mortos, pelo chão tórrido do sertão, à procura de uma poça de lama e de um resto do subnitrato do pó de um capim seco. E os gados mugiam tristes, pareciam lamentar insistentemente pela vida. Mas, ao ver as algas verdes, lembrou da época em que a chuva abençoava o seu querido pedaço de chão, trazendo com ela, as boas novas da esperança. Mas, por que será que todo sertanejo tem um fascínio pelo mar? Talvez pelo fato de o mar trazer com ele vestígios de um mundo inimaginável e ininteligível, algo semelhante ao paraíso. Mas acredito mesmo que seja pelo fato de o oceano ser sinônimo de paz. Azul-esverdeado ou verde-azulado... lembra céu num dia de sol... lembra paz! Movimento intermitente de ondas, também lembra paz! Porque a paz não é a constância e sim a inconstância dinâmica da vida! E, assim, o sertanejo volta para o seu sertão, local de lembranças infindas, com a lembrança inesquecível de um dia poder ter entregado a sua alma ao mar.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

No horizonte

Respiro o doce dos teus olhos
quando a falta tua
inspira em mim
a quase indissolúvel saudade

Prazer imenso tenho ao inalar a cor azul
do teu sorriso
no riso
nu

Rio minha canção
na tua música
E sorrio meus beijos
em teu coração

Corro ao vento,
suspiro o desejo,
degusto o tempo,
e te faço um solfejo

E assim vivo livre
preso ao sentimento
que me prende
livre em teus braços!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

O crescendo

A semente já havia germinado,
mas, por desvios do caminho,
enzimas interromperam
o seu crescimento.

A semente foi crescendo,
aos poucos,
forte,
e linda!

Hoje,
é uma arvore dentro de mim
à dispersar teu sabor,
teu fulgor,
tuas sementes
num ciclo fechado
dentro de mim!