sexta-feira, 5 de maio de 2006

Erosão precoce

Certo dia desses, passei numa construtora e vi um anúncio bastante chamativo: “O seu sonho pode se tornar realidade! Depende apenas de você! Faça o seu pedido e terá o seu amor construído em alguns dias!”. Me animei e fiz o pedido. Dentro de algumas horas o alicerce começou a ser construído. Estava tão extasiado e feliz que nem percebi a rapidez com que a construção se efetivava. Alguns dias após, o chão e as paredes do nosso amor estavam quase construídos. Mais alguns dias, e o nosso amor estava quase pronto. Faltava apenas o reboco e a pintura, que foram logo providenciados pelos teus olhos. E finalmente a construção se finalizou. Como era forte aquele imóvel, como era lindo, como era fantasioso! Tudo indicava que aquela construção perduraria por anos, vencendo infinidades de condições adversas temporais. Porém, em alguns meses, o amor começou a apresentar sinais de fragilidade. O telhado rachou, as paredes tremeram, as colunas ameaçaram desabar. Após uma forte tempestade, causada por uma espessa nuvem negra, uma parte do nosso amor se desintegrou, deixando a outra parte exposta a outras tempestades seguintes. Tentamos salvar a outra parte e reconstruir o que foi destruído. Em vão. Algo precisava ser feito. E foi. Derramamos nossas inflamáveis lágrimas sobre o chão e pusemos fogo em tudo. O amor implodiu. Restou apenas a fumaça e a fuligem, estas ficaram presas ao passado. Nosso lar morreu. Nosso canto de onde admirávamos o céu, de onde a lua era mais cheia e mais linda, de onde as estrelas nos sorriam, de onde as juras apaixonadas não eram tímidas, de onde um dia nos amamos. Hoje, visão da inércia.
Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Queda e apogeu

Noite estrelada,
enluarada,
clara.

Pára:
Olha o céu,
mente consternada.

Triste,
desaba,
degringola,
desmorona,
rui-se em pedaços.

Súbitos passos
metafóricos,
ilusórios.

Auditório em peso
assiste de pé
sua sentença.

Pensa:
São usurpadores
da minha utópica liberdade.

Reprimida saudade,
pirolisada,
finda.

Vinda
de uma nova perspectiva
a florescer.

Padecer,
e putrefar,
e perecer.

Convalescer:
Eis a nova esfera
no futuro de um novo ser!

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Simbiose

União do meu nada
com o teu tudo:
Deu em nada.
Para onde foi o teu tudo?
Nos roubaram?
Ou dissipou-se pelo ar?
Questionar:
Eis a questão
do infinito saber.
Ou não sei nada?
Não sei...
Tive tudo por um período
relativamente curto,
porém intenso tudo
enquanto existente.
Tudo inexistente
atualmente,
ou nada existente?
Eis a questão
do infinito não-saber!

terça-feira, 4 de abril de 2006

Texto louco sobre a Diaba Colonial

Em alguma casa nos tempos do Brasil-colônia...

Saia já daqui
vil meretrícula!
Não mereces uma só gota
do meu liquido vital!
Não engula!
Não engula teu mísero choro
e tuas dissimuladas lágrimas.
Chores tu, infame!
Mas não umedeça os lençóis
em que sobre eles um dia, vi teu sangue se derramar!
Não molhes o chão do meu lar,
chores na rua, sórdida!
Mas lembre-se de cobrir esse teu abjeto corpo.
Inepta! Quadrúpede indócil!
Saia já daqui!
Volta à rua,
volta à meretrícia,
que é teu lugar,
lenda da inocência!
Diaba inconteste!
Tua pérfida sutileza é um convite à mais ignóbil torpeza!

quarta-feira, 22 de março de 2006

Aqui jaz o amor II

Epitáfio:

“Enfim, morto. Foi uma honra ter existido em dois corações tão pululantes, mas infelizmente estes decretaram a minha morte. A esperança também foi morta, apesar de ter sido a última a vir falecer. Resta-me agora apenas deixar saudade para uns, e para outros, arrependimento, raiva e inimizade, pois assim decidiram eles.”

quarta-feira, 8 de março de 2006

Aqui jaz o amor

Vá, você agora é um homem livre... - disse ela. Ele não acreditava, ou não queria acreditar no que acabara de ouvir. Olhou mais uma vez profundamente nos olhos dela, mas não encontrava reciprocidade. Ela sorria, parecia feliz. Segurou a sua mão até não mais conseguir e separaram-se. Ele andava sem direção, estava chovendo, mas não percebera. Parou no ponto de ônibus e deu-se conta de que não lembrava o ônibus que devia pegar. Assim que o mesmo chegou, entrou e não parava de pensar no que acabara de acontecer. O seu mundo fora-se embora dizendo adeus e ele não sabia onde pisar, o que fazer e como não chorar. Ao chegar em casa uma grande nuvem de nostalgia invadiu o seu olfato, pois o cheiro dela estava em todos os cantos da casa. Como não lembrá-la? No dia seguinte, decidiu ligar e tentar ressuscitar o amor. Foi uma boa tentativa, porém em vão. Como não chorar? Seguros dariam perda total, legistas constatariam óbito, funerárias ofereceriam caixões e cemitérios o enterrariam de vez. Gemido morto, amor. E mais uma vez ele ergueu as velas do seu barco e saiu sem rumo, sem futuro, sem alguém para amar; só. Eternas ondas...

domingo, 5 de março de 2006

Rebuliço biofisiológico ou A prosopopéia dos Órgãos

- Senhor Cérebro, recebi informações de reações nervosas de que houve um vazamento de sangue no Coração. A situação é grave...
- Meu Deus... e você já sabe a causa?
- Uma desilusão amorosa senhor. A fulana, que há algum tempo estava morando no Coração, arrancou e levou um pedaço da sua antiga residência. Tenho informações também de que ela não pagava aluguel, nem contas de água e carboidratos.
- A situação é mesmo grave. O Coração não aprende nunca! Eu sempre o aconselho a seguir a minha palavra, que é a razão, porém ele nunca me ouve. Sempre fala mais alto. Já posso até ouvir ele falar: sentimento!
- Deixemos estas observações de lado, senhor. O que faremos? Precisamos agir rápido!
- Sei como lidar com esses vazamentos. Siga as minhas ordens...
- Sim senhor!
- As Glândulas Lacrimais precisam entrar em ação imediatamente! Mande-as funcionar, mesmo até quando os músculos faciais estiverem bastante inchados.
- Hum...
- Mande o Sistema Digestório fazer uma “operação tartaruga” e uma operação conjunta com o Hipotálamo. É preciso eliminar a fome e queimar gotas lipídicas excedentes.
- Hum...
- Precisamos diminuir a quantidade de leucócitos já!
- Hum...
- Reduza a quantidade de energia enviada aos Músculos Estriados Esqueléticos.
- Hum...
- Precisamos diminuir drasticamente a concentração de serotonina! Faça o Hipotálamo saber disso o quanto antes!
- Hum...
- Avise às Glândulas Supra-renais para produzirem mais cortisol.
- Hum...
- Por enquanto é só. Eu vou reduzir minhas atividades de neurotransmissão, o que irá provocar dor. Ah, só mais uma coisa: Avise a todos os órgãos que a qualquer momento podemos entrar em depressão.

Alguns meses depois...

- Senhor Cérebro, recebi informações de reações nervosas de que houve um vazamento de sangue no Coração. A situação é grave...
- Ai meu Deus do céu... vai começar tudo outra vez... um dia ainda vou ficar estressado! Você ainda tem aquele papel com as minhas ordens?